Lendas

A LENDA DO MONTE DAS CORUJEIRAS

Pelo Historiador José Hermano Saraiva.

<< "Devo-lhes dizer que naquela altura isto era completamente diferente. Agora estão aqui estes pavorosos eucaliptos, que vieram da Austrália, tomaram conta do nosso País. Antigamente isto não tinha eucaliptos, eram encostas com giestas douradas, com a urze, a esteva, o alecrim rescendente, uma ou outra azinheira com bolota de que os pobres faziam pão. Bom, mas a história é esta: naquela altura, neste local, não havia árvores, via-se bem o Castelo da Feira. Ora, no Castelo, um alcaide mouro ouviu dizer que uma donzela de Gaia, uma linda donzela que todos aqueles povos adoravam e dizia-se em todas estas terras maravilhas da formosura daquela donzela. Assim, o alcaide também quis conhecer a donzela. Então tirou as fardas de mouro, pôs uns trajes de pobrezinho e foi até Gaia pedir esmola.Quando viu a donzela confirmou que era tão bonita, tão bonita que ele logo ali resolveu raptá-la. Bom, pela calada da noite, arranjou lá uns criados, apanharam a donzela, meteram-na num barco e vieram por aí fora. Ele armado em bom, fingiu que foi libertar a donzela aos salteadores e apareceu, portanto como o anjo libertador e levou-a para o Castelo da Feira, e lá viveram, os dois, muito felizes. Ele era mouro, ela era cristã, mas ela ia ensinando àquelas pessoas o cristianismo, tudo corria bem. Contudo, o alcaide tinha um irmão que era homem de coração empedernido e que achava que ele é que deveria ser o alcaide. Achava mal que o irmão vivesse com aquela cristã, que estava aqui a contar as leis de Cristo, o que era sacrilégio. Então esse mau irmão assalta o Castelo, mata o alcaide, e ia para matar a donzela, também. Bom, mas a,í custou-lhe mais, matar uma donzela, e por isso não foi capaz entregando-a aos soldados, e disse: ” levem-na para esses montes e matem-na pois eu não a quero ver mais”. Os soldados que sabiam quanto ela era bondosa, não tiveram coragem para a matar, e abandonaram-na.

Ela ficou aqui, aqui neste Monte da Corujeira e por aqui, aqui se foi alimentando dos frutos das árvores, das amoras das silvas. Mas para não saberem quem ela era, com uma pedra afiada retalhou a cara toda e toda aquela beleza desapareceu, vestiu-se de negro, e andava por aqui à noite, sempre bondosa, a tratar de todos, a curar das feridas dos viajantes, e a dizer coisas que pareciam profecias. Bom, olhem, era a bruxa do Monte da Corujeira, mas o pior é que ela dizia coisas que saíam certas. Então o mau alcaide, o tal que tinha morto o irmão, que julgava que ela já estava morta, ouviu falar aqui na bruxa do monte e também cá veio. Veio ouvi-la e perguntou: “ e então a mim o que é que me vai acontecer?” e ela diz-lhe “ Olha, ainda bem que cá viestes, eu tinha uma coisa para te dizer e não sabia como te havia de prevenir, imagina tu que esta noite o teu Castelo da Feira vai ser atacado por um exercito tão grande, tão grande, tão grande que tu não tens gente para defender! E vão-te matar! Vais morrer esta noite!”. Bom, o alcaide pensou “ah, conversas de bruxa, quem é que vai nisso!”. E vai para o Castelo. A donzela, que agora parecia bruxa, pede a todos aqueles que ela ajudou e que gostam dela, que juntem as suas manadas de bois. Ela manda colocar uma candeia num chifre de cada boi, e à noite avança para o Castelo. O alcaide o que é que vê? Vê que estes montes, parece que todos os montes avançam, são milhares e milhares de guerreiros, todos com aqueles fachos e aí o alcaide diz:“a bruxa tinha razão! Ora a bruxa disse que eles iam me matar, portanto nada de combates, a bruxa tinha razão!” e fugiu, fugiu, nunca mais ninguém o viu.

A bruxa tranquilamente entra no castelo, deixou de ser bruxa, continuou a ser doce donzela que ensinou àquela gente a boa religião cristã e foi dessa maneira, conta a lenda, que a gente da Feira esqueceu o Corão e passou a rezar ao verdadeiro salvador do Mundo. Tem mais episódios a história, eu disse o essencial, mas reparem isto é uma história do tempo da luta dos mouros com os cristãos, no tempo difícil do contacto das duas raças, é das histórias mais interessantes do romanceiro medieval português."

NOTA: As Corujeiras ficam no lugar da Giesteira, Vila de São João de Ver.